Aproximação

Assim aguardamos, na juventude, durante anos, algum evento que não sabemos bem qual seja, que pode vir de um encontro, de uma carta, que não vem nunca e cuja impossibilidade só reconhecemos quando descobrimos haver fugido a época adequada à sua vinda, que agora tememos, pois seria desesperante vir depois do tempo, vir quando não mais pode regozijar-nos.

Osman Lins em Avalovara, romance de romances


Deste-me a vida e o amor, e tua solicitude me guardou.

Livro de Jó, 10:12


Não descalço os sapatos nem guardo no quarto o casaco que pende do meu braço quando entro em casa. Exausto, sento-me no sofá e espero. Ela aparece de repente, vindo silenciosa de algum cômodo distante, preenchido de sombras. (É noite alta e ela deixou todas as luzes apagadas, e como não faz nem deixa de fazer nada sem um propósito oculto, sempre artificiosa, fico considerando um sinal, um aviso. Que quererá dizer?) Ela se impõe diante de mim, o vestido e os sapatos levíssimos, as mãos presas num vago gesto de apreensão, uma expressão incerta vincada no rosto estranhamente jovem – percebo com certa surpresa, mas deve ser um efeito da penumbra que a alcança, da janela vem uma luz irreal, pálida e vívida. Desvio o olhar. A janela aberta, o frio que ela permite avançar dos fundos da noite, em rotas e órbitas escuras descritas pela brisa. Não tocou em nada na minha ausência, os mesmos grãos de pó estão suspensos, a mesma bagunça, retomo o mesmo instante que aqui deixei ao partir no meio da tarde. Ela estava escondida, eu não a via, ela não se deixava ver. Agora, no entanto, aparece como uma sombra, uma silhueta esboçada por traços tênues, força-me a vê-la e fala afetando-se distraída, fitando os meus pés, “onde esteve?”, uma pergunta óbvia que esconde infinitas outras. Cruzo as pernas como se não ouvisse e passo a tirar, um por um, os carrapichos presos à barra da calça e aos cadarços. Os sapatos estão sujos como os de uma criança, que fazer para amanhã? Que horas serão? Contraponho à curiosidade dela, “onde esteve?”, outra pergunta evasiva, “por que a senhora veio?”. Singramos no tempo, juntos outra vez, um novo silêncio, imperfeito, em que percebo uma vibração estranha, uma melodia em crescendo, talvez grilos e um pássaro noturno, deformados por longas distâncias, um descompasso, um desencontro. Na minha respiração restam ainda marcas do esforço, da oscilação ofegante no meu peito. Ainda sinto o desconforto do suor, os sinais que ela enxerga e interpreta com clareza na escuridão, lendo-me outra vez, vendo em mim a criança que em tantas tardes lhe escapava. Eu a observo e tento desvendar seu artifício, inábil. Está imóvel, em que pensará? Nenhuma outra pergunta quererá fazer? No seu rosto velado me vejo, invento nas sugestões a linha reta e perfeita de seu pensamento. Apoia-se no outro pé, cruza os braços, aperta-os com as mãos. Tento imitar-lhe a astúcia, passo a mão pelo queixo, pela testa, mas o suor me desconcerta, ela compreendeu tudo, tateio meus cabelos desalinhados e úmidos, “onde esteve?”, “por que veio?”, ela pergunta ou eu, e tenho a impressão de que soam nossas vozes juntas, “eu não sei”, no espaço entre dois suspiros confundidos. Outra vez. Ainda não sabemos conversar e nem sei eu o que lhe devo dizer. Ela me adivinha e me inventa. Que me resta? No desacerto de sua linguagem, no nexo distante de suas palavras, na cadência misteriosa de suas ideias tenho a mesma sensação de que tudo já foi dito; como antes, ela dispõe no que diz a mim, de sua longuíssima história, completamente oculta pelas asas da noite, depois de selecionar entre as restantes as melhores páginas, silêncios indeclináveis. Silêncios de tardes inteiras, em que estivemos unidos e nos calamos, silêncios que eram seus segredos, guardados havia muito tempo, que vinham perturbá-la ou talvez consolá-la – impossível saber. Nada nesses momentos dilatados. A solidão é a sua primeira linguagem, sempre me disse mais quando, na quietude, seus olhos me contemplavam. Nossos olhares perplexos, surpresos, descobriam-se e permaneciam sozinhos. Passei a pensar que estava próximo demais de uma imagem para distinguir os seus contornos, que ouvia de muito perto um som contínuo, que ganharia novo sentido à distância, na figura refletida de um eco. Estava certo. O afastamento, contrassensualmente, apura a percepção ao ampliá-la, compensando os detalhes perdidos pela totalidade, pelo horizonte abundante, no qual ideias mais ou menos completas, redimensionadas, vão revelando nos símbolos e notas motivos e harmonias. Motivos e harmonias desfigurados de outra forma – toda observação é imperfeita e pressupõe a deficiente subjetividade do observador –, por um desvio ao vermelho ou ao azul, à esquerda ou à direita, ao passado ou ao futuro. Palpitações desesperadas, traduzidas do fundo mais fundo do meu peito, ouvidas por ela no silêncio quase perfeito. Feridas, preditas por ela, no silêncio que permite e que eu deformo. A tardia e repentina aproximação. Ela retorna e não sei quando irá embora. Esperava-me havia quanto tempo? Ela me encontra porque nunca me abandonou, não precisa procurar-me. Mas preciso de tanto esforço para imaginá-la... Nos seus olhos, que parecem brilhar, reconheço os meus, a mesma cor, o mesmo desconsolo, a mesma pressa nas leves pinceladas circulares. Ela me criou à sua imagem. Nos braços vigorosos não vejo nenhum dos seus adornos, nas mãos fixas não reluzem os seus anéis, a simplicidade com que se apresenta também quererá dizer alguma coisa. O quê? Talvez seja a minha vez de vencer o silêncio interposto. Aguardará – talvez como sempre – uma palavra minha, que tentasse – talvez desde sempre – ensinar-me? Nos seus olhos, através do brilho e da cor, destacados na sombra, percebo os caminhos que ela delineia aos meus pés, os encontros, os segredos fantásticos. Ainda acreditará neles? O pasto, sozinho passo, a luz logo infirme do crepúsculo, a serra tão perto e tão longe, campos inapreensíveis por um único lance de vista, indizíveis por uma única palavra, a escuridão apressada, o retorno. Pálida e vívida a luz que desvela sua face a um leve movimento. Ela se ajoelha, mas vejo-a distante e ainda mais jovem, diante de mim, tão perto, tão longe, tão vaga. Minhas mãos abandonadas, meu corpo arrefecido, abrandado agora por um estranho prelúdio, maior que o momento e que nós dois, a saudade que me comove e me exaspera, revelada como uma lâmpada que acendêssemos, tenho ímpetos de me atirar ao seu colo e de abraçá-la, de me desculpar pela ausência, de confessar o meu amor, sempre imperfeito, maculado de intervalos silenciosos, nunca dito inteiramente, já não sei se ela consegue adivinhá-lo, talvez não, talvez seja capaz apenas de delimitar os meus caminhos e não os meus sentimentos, talvez não saiba ainda que a amo, que estive esperando e que estou esperando ainda. O momento se distende. Agora nada mais se ouve, nada mais existe, cessou a crescente e dissonante vibração. Ainda ficará aqui comigo? A casa flutua sem espaço, perde-se no tempo, sou a criança que chega no fim da tarde e lhe causa preocupação depois de andar sozinha pela vizinhança e ser chamada para brincar, sou o menino que lhe dirige timidamente o olhar e não sabe como lhe pedir atenção, exatamente como agora. Se conhece o que penso, se adivinha o que sinto, não demonstra. Não sorri, não perturba o rosto, impassível a indefinição de seus traços. Ao mesmo tempo desconheço a minha expressão, não sei externar-lhe o que sinto, embora sinta com desespero. Levanta-se então, esboça dois, três passos exatos e parte, a porta se fecha sem rumor. Ainda me dirige um furtivo olhar de menina. Eu me limito a corrigir a postura e a alçar-me levemente no sofá, assustado, mas considero que se não posso impedi-la posso ainda reencontrá-la, nas minhas palavras há ecos cifrados e símbolos esquecidos, percebo no chão manchas de sangue e marcas de terra, atravesso a sala em passos quase exatos, imito o movimento de seus pés e avanço, ao passar pela porta sinto a brisa gélida no corpo febril, a rua opaca dissolve-se em fissuras e cicatrizes, a luz desbotada pertence a um poste solitário de que sequer me lembrava, reflete-se com cansaço em todos os objetos e dá a impressão de que logo apagará, ilumina por pouco os traços vaporosos que persigo, viro à esquina e onde estou, não sei que rua é esta, desconheço o seu nome, faz frio e não trouxe o meu casaco, a brisa confunde-se em ventania, traz secretas exalações da cidade, tudo recende a madrugada, nos meus pés as gotas de orvalho são lágrimas, na escuridão completa já não vejo o caminho de postes equidistantes, perfeitos objetos de observação perdidos no nada, estou na minha antiga vizinhança e não reconheço nem uma casa, nem uma árvore, nem uma flor, mas ainda restam vestígios de um número que me pertencia acima de uma porta, eu entro, descalço os sapatos, guardo no quarto o casaco e procuro na casa vazia, as luzes todas apagadas, eu me escondo nas sombras e espero, o seu quarto é o mais distante cômodo, eu espero eternidades e ela não aparece, desisto, saio outra vez perdido, sozinho, dissolvido no fluxo espiralado dos ventos, uma estranha luz sem origem me devassa, alivia-me o mistério da noite em que nem um minuto passa, como se partisse agora a uma primeira viagem e iniciasse uma odisseia anunciada por tempos antigos, por momentos que não vivi, por homens que desconheço, em um tempo mítico, em uma terra mística, avanço, prossigo, retorno, sigo caminhos descritos antes do dilúvio e redescritos pela sobrevinda dos caminhantes, há sono em cada coisa, quantas são as divindades oníricas e aonde me levam, saio da cidade em poucos passos e com os meus olhos alcanço o céu, sem estrelas mas iluminado, sem lua mas familiar, desço uma íngreme encosta e não paro de descer, estou em um pasto sem distâncias, sinto como memórias carrapichos e espinhos, piso em terra poenta e tropeço em pedras irregulares, inverno ou verão, cedo ou tarde, uma estrada em que continuo, que sigo até ver luzes cada vez mais próximas, chego à fazenda dos meus avós e sei que ela está aqui, passo a senti-la e posso imaginá-la, sozinha também, um ar solene nos móveis, nos retratos, na penumbra e no odor de velhice, no relicário de imagens e de ídolos, nas peças de couro e nos objetos de prata e de louça nas estantes abandonados, nas flores mortas, no silêncio perfeito, eterno início de uma estória que nunca começa, eu abro a porta do quarto que um dia lhe pertenceu e a encontro deitada na vasta cama, envolvida por um lençol manchado e convulso, encharcado por seu suor, movido levemente por sua respiração arfante, eu estou aqui, adivinho nas formas ocultas um gesto humanizado que apenas parece simples, ela tenta levantar-se, seu rosto envelheceu, tanto tempo perdido, eu a completo e a invento na solidão, eu a reconstruo diante de mim, com ternura me aproximo e lhe toco os cabelos encanecidos, talvez próximo ou distante demais, um dia ela me moldou de um sentimento informe e eu me tornei um desejo seu, ela traçou todas as minhas feições e meus caminhos, um novo espaço vazio entre nós, a vida nos foge e ela, depois de perguntar por que vim e onde estive sem alcançar uma resposta, mas adivinhando-a com uma prece nos olhos brilhantes, me faz prometer que a amo, me toca e me faz prometer, me abraça e me faz prometer, me beija e me faz prometer, e então eu, ainda seguindo um caminho de sangue e obedecendo a seu artifício, escondendo o cansaço e a esperança refletida nos meus olhos, digo a ela que sim, ajoelho-me e digo que sim, abraço-a e digo que sim, beijo-a e digo que sim, desperto e digo que sim, espero-a e digo que sim.

 

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